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O Poder das Metáforas PDF Imprimir E-mail

A carroça

Uma das preocupações de meu pai, quando éramos pequenos, consistia em nos fazer quanto
a cortesia é importante na vida. Por várias vezes percebi quanto lhe desagradava o hábito
que certas pessoas tem de interromper a conversa quando alguém está falando. Eu, em
especial, normalmente cometia esse erro. Embora visivelmente aborrecido ele nunca ralhou
comigo por isso.

Certa manhã ele me convidou para ir ao bosque, a fim de ouvir o cantar dos pássaros. Aceitei
alegre! E lá fomos nós, a caminhar sobre a relva ainda orvalhada. Já há algum tempo de
passeio, ele se deteve em uma clareira e, depois de pequeno silêncio, me perguntou:

- Você está ouvindo alguma coisa além do canto dos pássaros?

Apurei os ouvidos alguns segundos e respondi:

- Estou ouvindo o barulho de uma carroça que deve estar descendo a estrada.
- Isso mesmo... disse ele. É uma carroça vazia.

De onde estavamos, não era possível ver a estrada. Assim perguntei admirada:

- Como pode saber que está vazia?
- Ora, sabe porque é fácil perceber que se trata de uma carroça vazia?
- Não! Respondi intrigada.

Meu pai pôs a mão no meu ombro, olhou bem no fundo nos meus olhos e explicou:

- Por causa do barulho que faz. Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.

Não disse mais nada, porém deu-me muito o que pensar. Tornei-me adulta e ainda hoje,
quando vejo uma pessoa tagarela e importuna, interrompendo intempestivamente a conversa
dos outros, ou quando eu mesma, por distração, vejo-me prestes a fazer o mesmo, imediatamente
tenho a impressão de estar ouvindo a voz de meu pai soando na clareira do bosque e me
ensinando:

- Quanto mais vazia a carroça, maior o barulho que faz.




O homem que não queria beber só

Alexandre, o grande, conduzia seu exército de volta para casa depois de grande vitória contra
Porus na Índia. A região que cruzavam no momento era árida e deserta, e os soldados sofriam
terrivelmente de calor, fome e, mais que tudo, de sede. Os lábios rachavam-se e as gargantas
ardiam por falta de água. Muitos estavam prestes a se deixar cair no chão e desistir.

Um dia por volta do meio-dia, o exército encontrou um destacamento de viajantes gregos.
Vinham montados em mulas, e carregavam alguns recipientes com água. Um deles, vendo o rei
quase sufocar de sede, encheu um elmo nas mãos e olhou em torno de si. Viu os rostos sofridos
dos soldados, que ansiavam, tanto quanto ele, por algo refrescante.

- Pode levar.

Disse ele.

- Pois se eu beber sozinho o resto ficará desolado, e você não tem o suficiente
para todos.

E devolveu a água sem tomar uma gota. Os soldados, aclamando seu rei, puseram-se de pé e
pediram que o lider continuasse a conduzi-los adiante.

Extraído de: O livro das virtudes II - O compasso moral.